Escritos

Resolvi colocar uns textos de um tempo em que eu era outra pessoa. Sorte

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Des-Ordem

Um vitral quebrado, faz
estilhaços formarem estrelas num chão
que outrora foi coberto de pessoas fúteis.

A poeira encobre a vergonha da luz, e
o reflexo turvo de todos os medos
jaz em uma ruína no precipício da divindade.

Uma planície em preto-e-branco,
um sino manchado de lembranças,
dançando em uma noite quente.

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Cinza

No quarto em que os fantasmas conversam,
as janelas ficam despidas pelo medo.
Há restos de lembranças que não existem
abandonadas na varanda de um poço velho.
A madeira escura esconde a vida,
e a vida se esconde do frio.

Manequins de expressões rasgadas
enfeitam a sala do mal-estar.
Pequenos pedaços de coragem
iluminam o que sobrou do passado.
Um vaso quebrado, um quadro queimado,
se transformam em bestas aladas.

O espelho do corredor reflete
o vazio que sobra na alma de cada um.
As aranhas se preparam para o chá,
enquanto o silêncio dorme em seu trono.
Cada canto, em cada cômodo,
abriga uma dimensão escondida.

Confuso e sem cuidado é
o palácio da morte.

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Desejos

Um garoto sentado a beira do abismo,
contemplando o infinito,
sem asas,
grita.

Um automóvel parado na esquina,
espalhando visões de Deus,
sem fé,
morre.

Uma prateleira vazia e quebrada,
escondendo a verdade,
sem portas,
queima.

Um relógio de parede antigo,
vigiando a eternidade,
sem luz,
chora.

Uma brisa que passa despercebida,
brincando com as dimensões,
sem alma,
conquista o mundo.

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 Mitos

Há pequenos devaneios em cada canto da casa,
pequenas pegadas de almas futuras.
Um dragão de nove cabeças olha pela janela,
uma pequena estátua de Sheeva numa árvore.

A quintêssencia do ser brinca de esconde-esconde
com as flores no jardim.
O rio Lethes transporta verdades,
por todo o caminho de pedras mortas.

Uma dimensão se esconde atrás
de uma estátua de Buddah.
O Tao está preso entre duas paredes
feitas do mais fino mal.

As folhas murxas que caem da Yggdrasil
desenham o universo em um chão eterno.
Terras sem-fim de virtudes corrompidas,
enterram o olho de Hórus.

Um livro esquecido cai do alto da estante
e na queda destrói todas as crenças.

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Máscara

Sob                                      
       uma                              
               escadaria                    
                                              velha,                 da morte
                       só                      
             existe                          
sombra                                       



Escrito por • é l i o • às 22h55
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Existencialismo

A palavra 'existência' sempre me intrigou, antes mesmo de eu próprio ter qualquer conhecimento da sua seriedade, no dicionário é dito:

e.xis.tên.cia
(z), s. f. 1. Estado do que subsiste. 2. Fato de existir. 3. Vida. 4. Destino. 5. Modo de vida. 6. Realidade. 7. Ente, ser.

Mas como todo bom teimoso e descrente, eu precisei formar minhas próprias bases para um conceito que eu tenho como meu, apesar de parecer adotado por pensadores que eu mesmo desconhecia até pouco tempo. E não receio dizer que senti uma certa ponta de felicidade e talvez de iluminação, por chegar a conclusões perigosas e tortuosas sobre o que de fato é o assunto que mais me interessa, sem o auxílio de nada a não ser minha mente duvidosa.

Assim eu decidi com muita relutância e medo das críticas, assim como se deve sentir aquele que escreve algo para ser lido por outros além de si mesmo, fazer um minúsculo panorâma do que se passa e se constrói no meu pensamento em relação a esse tema. E vale evidenciar que todo conceito possui uma profundidade muito maior e deve ser muito mais trabalhado do que como se apresenta aqui.

O texto que se segue foi o ladrão de meu sono impedindo minha mente de descansar até ele ser devidamente escrito, diz:

Acredito que haja ao menos quatro estados¹ existênciais que se relacionam e se devem fazer ressaltar, o lógico-empírico, o subjetivo, o obscuro e o universal, sendo que os três primeiros se ocupam especificamente da alma humana e o último de tudo o que existe. Tais estados se interligam para formar a consciência humana.

Para o homem, a consciência se toma como algo reflexivo, próprio do ser para se auto-conhecer e compreender a realidade, porém para se ter uma visão mais abrangente da própria realidade o ser, enquanto racional e distinto, deve se olhar dentro do outro.

Os quatro estados existenciais:

- O estado lógico-empírico: encarrega-se do raciocínio e do pensamento reflexivo do ser. Aquilo que se adquiri, se percebe, se analisa e se compreende durante o tempo de vida. O formador da opinião e do caráter moral.

- O estado subjetivo: a imaginação; o sonho²; a criatividade, aquele que desafia o mundo físico através de imagens formadas pelo pensamento do ser. O responsável pela inspiração estética e do ser criador de si próprio³.

- O estado obscuro: o estado emotivo, o irracional, o inconsciente. Responsável pela intuição e por impulsionar o ser em decisões contrárias ao pensamento lógico. Aquele que se esconde da compreensão humana e ainda assim a afeta e a modifica, de certo modo um estado de sugestão interna através dos desejos desconhecidos do ser.

- O estado universal: o instinto inato. Não sendo aqui, especifico a alma humana, mas sim a toda existência que se conheça e se desconheça pelo próprio homem e que está contida no tempo-espaço, definindo-o, o instinto, como aquilo que se é comum a toda forma existencial, por isso universal, e decerto age como um principio motor para tudo o que há.
Ruyer disse: “A ameba não tem sistema nervoso e no entanto ela "age", comporta-se como um predador, manifesta instintos (...)” Assim como a planta que imersa em escuridão cresce em direção à luz solar, assim como através de campos elétrico e magnéticos átomos se unem para formar matéria e etc. Defino assim como instinto inato, aquilo que existe na própria existência.

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¹ Entende-se por ‘estado’ o modo pelo qual a coisa se apresenta.
² Tem-se por ‘sonho’ o sentido de ilusão, estritamente o que é impossível de se acontecer na realidade.
³ Ou seja, a visão que o ser cria de si mesmo através de conceitos formados por si próprio através de seu conhecimento de si e do externo.

 

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"Que o caos não se tranque em si mesmo, mas que evolua para um estado de inovação humana."



Escrito por • é l i o • às 22h54
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